The Wind Rises


Cunhado por Hayao Miyazaki, 2013.

  • Um belo hino aos sonhos, à liberdade e ao destino, entoado por entre um meio envolvente sempre dotado de uma beleza estonteante.
  • Narrativa extremamente madura, gerindo eximiamente bem romance e drama. Trabalho menos infantil. Leva o seu tempo a conquistar-nos com uma primeira metade de trilha mais lenta mas depois embala e agarra-nos até ao fim. Contexto histórico apelativo revelando o grande terramoto de 1923; o flagelo da tuberculose; a pobreza de uma nação que sonhava sobrepor-se aos grandes colossos mundiais;  a grande depressão e por fim a segunda guerra mundial. O vento é talvez um dos melhores elementos que pode ser associado aos sonhos: efémero, rápido, difuso, mas expansivo, volátil, intenso, suave, agressivo ou apaixonado. Jiro sonhava com a beleza de um avião, com a capacidade de voar, ou pelo menos de pilotar um avião. A sua visão esteve desde a infância longe da definição desejada para o efeito mas Jiro não perdeu o trilho, o seu objectivo - focou-se na engenharia e procurou construir um avião bonito e capaz. No seu percurso encontra e desenvolve um amor incondicional por Naoko, a qual, tal como um avião se revela ser um sonho amaldiçoado: estava o avião de Jiro condenado à guerra do mesmo modo que estava a sua esposa condenada a morrer. No fim, restam os sonhos e pelo menos o regozijo de que naquele período de tempo, Jiro aproveitou o melhor que foi capaz a sua vivência neste mundo.
  • Os elementos do costume em Miyazaki: o vento a representar a natureza; a aviação e construção do engenho de novo como a mecânica central à semelhança do que encontramos em Porco Rosso; ligação à Europa muito bem concretizada, defendida por sonoridades que nos remetem inequivocamente em cada uma das suas origens.

-10-

Jin-Roh: the Wolf Brigade


Hiroyuki Okiura dirigiu, Mamoru Oshii redigiu. 1999.

  • Numa sociedade mergulhada num turbilhão político surgem facções revolucionárias que através do terrorismo procuram destabilizar o governo e as forças policiais. Uma elite militar intervém no conflito. É neste contexto que floresce a narrativa deste trabalho e a qual toma como epicentro uma constante analogia à história do capuchinho vermelho: os homens desta elite actuam em matilha mas são lobos solitários, dotados de uma personalidade fria e conturbada por experiências agressivas. Um deles encontrar-se-à no centro de uma trama política que o pretende usar como bode expiatório para novas transformações internas dentro das várias organizações policiais – mas este lobo é guarnecido pelos lobos companheiros e a contenda encontrará um ponto de equilíbrio. Emocionalmente no entanto, este lobo acaba por se envolver com o capuchinho vermelho, forçando-o a esbarrar com dois possíveis caminhos: o de assassinar este capuchinho vermelho e continuar um lobo ou prosseguir caminho enquanto um Homem. Mas uma besta, mesmo sonhando e vivendo como um homem, nunca deixará de ser uma besta...
  • A narrativa está portanto bem formulada, encontra um cenário gélido, turbulento e emana as devidas linhas emotivas, atingindo um clímax emotivo bastante interessante. A paleta de cores e o traço parecem-me apropriados ao quadro retratado e a sonoridade escolhida é um elemento notavelmente bem alinhavado ao decurso da acção.
  • Contém cenas com alguma violência assinalável e certamente o alvo deste labor foge a um público mais infantil. Recomendo.

-9-

Ghost in the Shell 2: Innocence

Orquestrado por Mamoru Oshii, data de 2004.


  • Graficamente procurou oferecer-nos uma exuberância tecnológica palpável, claramente comprovando a evolução da animação na quase década de intervalo entre o primeiro Ghost in the Shell. 
  • Enverga uma narrativa mais filosófica, mais profunda e também bem mais complicada de absorver. O curso da acção é bem mais quebradiço e desinteressante quando comparado com o primeiro trabalho; menor carisma nas próprias personagens, sendo que existe a sensação constante de que fomos deixados com as “sobras” do primeiro labor. A constante ausência da Major e a sua deslocação de protagonista para a periferia teve a meu ver um impacto bastante negativo.


-8-

Porco Rosso

Mais um, realizado por Hayao Miyazaki em 1992.

  • Porco Rosso contextualiza-se numa Itália fascista e sobretudo numa Europa entre guerras. Escolhe como personagem principal um porco aviador, o qual adquiriu esta forma através de um feitiço. A narrativa não explica o porquê nem como mas introduz aqui e ali informação que nos leva a trabalhar mentalmente no que poderá ter decorrido e levando-nos a crer que a sua transição para porco estará relacionada com a sua incapacidade de resolver determinadas problemáticas pessoais, as quais desembocam numa consequente descrença na humanidade e mesmo no seu país (a própria saída de Marco da força aérea parece indicar-nos a sua incompatibilidade com o regime que ganha então força).
  • O filme encontra positivamente, através da música e dos cenários, a beleza do Mediterrâneo e do Adriático e transmitindo-nos também e da melhor forma uma aura que assenta bem no período histórico abordado. 
  • Agrupa alguns dos elementos característicos das obras do velho mestre japonês, desta vez centrados na aviação e na construção do engenho pilotado por Porco Rosso. Em termos de narrativa acredito faltar-lhe a força de outras obras: apresenta rivalidades, duelos e nuances políticas, românticas e militares, introduz a figura juvenil feminina e destemida do costume mas a linha narrativa parece-me por vezes fria independentemente da fluidez da acção e da profundidade existencial das personagens. Também me parece um trabalho descontraído, assumidamente infantil e como tal coloca-nos desde logo em descompressão e mais alheios a possíveis picos de tensão. 
  • Não será nem de perto nem de longe a mais carismática obra de Hayao mas ainda assim tem uma aura à sua imagem, nostálgica, com alguma profundidade e uma animação que consegue em uma ou duas cenas fazer desfilar um sentido artístico mais aguçado. Falta-lhe algo é certo mas ainda assim, um bom trabalho.
-8-

Nausicaa of the Valley of the Wind

De Hayao Miyazaki, 1984.

  • Mais um excelente exemplo da mais fina mestria conduzida pelo titã do anime, Hayao Miyazaki. A originalidade da narrativa é aqui intensa, verde e matriz de muito do que se faria a seguir. Castle of Cagliostro antecede Nausicaa em termos de filmografia mas é a todos os níveis uma obra bastante diferente. É Nausicaa of the Valley of the Wind que arquitecta o padrão aplicado sistematicamente em trabalhos posteriores, tendo em Mononoke-Hime o mais substancial exemplo disto mesmo.
  • A mesma abordagem ambientalista, as preocupações e mensagens sublimares; a postura possessiva e negligente do ser humano, as repercussões da sua conduta nefasta; a parelha juvenil, romântica mas inocente enquanto o vértice de uma esperança: a esperança de que a humanidade pode ser rejuvenescida e reencaminhada na direcção correcta. Tudo isto pode ser aqui encontrado. Foi a meu ver a primeira grande obra de Hayao e de lá para cá nunca deixou de pertencer ao pelotão qualitativo da sua carreira. 
-10-

Castle in the Sky

Mais uma obra do grande mestre nipónico. 1986.

  • De novo a mãe-natureza surge como problemática central e de novo também surge o bicho homem no encalço por poderes e riquezas que não conhece ou domina. Anexemos a isto a habitual parelha juvenil apresentada por Miyazaki e temos definido o padrão narrativo que nos alheará do mundo ao longo das próximas duas horas.
  • Surgem também os habituais elementos vinculados ao labor do homem: neste caso sendo-nos introduzida uma vila mineira graficamente estruturada como esperado de forma inventiva, e fusionando fantasia e realismo com grande perícia.
  • Miyazaki aproveitou para privilegiar os primordiais elementos da natureza: vento, terra e água. O fogo a meu ver, encontra-se também ele presente na maior parte das obras de Hayao mas enquanto elemento dominado pelas ambições e acções do ser humano. 
  • Em suma, o enredo foca-se em torno de um castelo flutuante há muito perdido, transformado numa verdadeira caça ao tesouro por vários partidos, eleva em paralelo um envolvimento ternurento entre a parelha protagonista e por fim, através do contraste entre a beleza fulgurante da natureza com o estado caótico gerado pelo Homem formula-se uma derradeira ruína de redenção, sublinhando-se os votos de renovação da relação do ser humano com o meio ambiente que tanto lhe é necessário.  
-10-

Howl's Moving Castle

Nasce às mãos de Hayao Miyazaki em 2004.
  • A magia do velho mestre continua presente. Não tão somente pela qualidade inegável da obra em mote mas num sentido mais figurativo, enquanto elemento que é nevrálgico ao desenrolar dos acontecimentos montados pela trama. A magia é portanto elemento relevado e acarinhado, como já antes havia sido, sendo Kiki's Delivery Service um bom exemplo disto mesmo.
  • Continuamos a vislumbrar criaturas inventivas, um traço continuamente criativo, cores e cenários deslumbrantes e a meu ver, um conjunto gráfico que revela manifestos sinais de um homem que continua a superar-se e a evoluir, trabalho após trabalho.
  • Não obstante, Howl's Moving Castle queda-se apesar de tudo, atrás de Spirited Away: é brilhante no campo gráfico, exibe uma narrativa enigmática e conseguirá a seu tempo arrebatar-nos mas é também uma obra mais austera, tem uma paleta mais sombria e uma fluidez narrativa que ainda assim não atinge os níveis do seu antecessor. Contudo, coloco Howl's num patamar muito próximo. Mesmo muito
  • Encontramos as tradicionais mensagens subtilmente impregnadas na trama, sorvemos uma acção empolgante, rendemo-nos ao traço e essência das personagens dispostas e esperamos pelo melhor dos desenlaces. Hayao não deixou de relevar engrenagens, maquinarias e elementos assumindo-se a meu ver o fogo, como elemento primordial desta sua obra.

-10-